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Cássia Filetti

Assédio é vilão dos escritórios. Veja se você já passou por isso

O crescimento econômico, a competitividade e a pressão para produzir com qualidade e baixo custo trouxeram à tona um novo vilão dos tempos modernos: o assédio moral. Muitas vezes maquiada sob a forma de brincadeiras - uma vaia coletiva por não ter alcançado um objetivo, por exemplo -, a agressão reduz a produtividade das empresas, gera doenças emocionais e físicas e bombardeia as relações sociais.
 
De acordo com o advogado trabalhista e previdenciário George Ellis Kilinsky Abib, algumas categorias sofrem mais com o assédio. "Os bancários e as mulheres têm se revelado as maiores vítimas. Isso em razão da pressão que a instituição exerce para que os empregados gerem lucros constantes".
 
Foi o caso de uma funcionária de um banco do setor privado. Após voltar de uma licença de 180 dias por conta do diagnóstico de Lesão por Esforço Repetitivo (LER), foi recebida pelo supervisor com palavras de hostilidade.

 “Porque você não volta para o INSS? Com você, o banco só tem despesas".

Em junho deste ano, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) condenou o banco pagar R$ 150 mil à funcionária. Na decisão, publicada no último dia 28 de junho/2008, o TRT reconheceu que as práticas do banco foram de assédio moral no trabalho.
 
A bancária - que pediu para não ter o nome divulgado - trabalhava na instituição desde 2000. Em 2005, precisou afastar-se por motivo de saúde e, quando voltou, em 2006, começou o pesadelo: foi colocada em uma mesa próxima à porta do banco, distante dos demais funcionários e era tratada com hostilidade pelo supervisor.

Na gaveta
 
Ela conta que já teve a assinatura em um documento falsificada, a gaveta com pertences pessoais e de trabalho remexida e, quando reclamava da dor por estar digitando, era chamada de "fresca". O pior momento, segundo ela, foi quando recebeu uma carta de advertência do supervisor, após ter reclamado do episódio da gaveta.
 
Instruída pelo sindicato a não assinar o papel, a bancária entrou com o processo e ganhou. "Na época, o gerente fazia reuniões e falava com os caixas: 'Vocês têm que vender. Se vocês não venderem, não servem para o banco'", conta.
 
A bancária diz que hoje muita coisa mudou no trabalho. O supervisor entrou em acordo com o banco e não trabalha mais na agência. Há também um novo gerente, que, segundo ela, tornou o ambiente mais leve. Lembrando-se do que sofreu, ela recomenda. "Não importa em qual empresa você trabalha, se você se sentir hostilizado, procure seus direitos".

Casos
Indenizações por assédio moral são recorrentes.
 
Condenações
Justiça tarda, mas não falha.
 
1. Doação
Um homem trabalhava como supervisor de uma grande empresa  e foi obrigado  a desistir de receber R$ 46 mil da empresa, após ganhar uma ação judicial. "A vítima foi 'aconselhada' a doar o dinheiro para uma fundação da empresa, sob pena de ser dispensado". Ele doou, mas perdeu o dinheiro e o emprego. Então, recorreu à Justiça, que reconheceu o assédio e condenou a empresa a devolver-lhe a doação R$ 46 mil, além de outros R$ 50 mil, a título de danos morais.

2. Coletivo
No início deste mês, a Companhia de Bebidas das Américas (AmBev) entregou dois veículos à Superintendência Regional do Trabalho no Rio Grande do Norte, para uso em fiscalização. A doação faz parte de indenização por dano moral coletivo no valor de R$ 1 milhão, prevista no acordo extrajudicial. A empresa também se comprometeu a não utilizar prática discriminatória contra seus empregados e realizar campanha sobre o assédio moral.

Dicas

Junte provas
 
Ônus. Segundo os advogados George Ellis Kilinsky Abib e Cleone Heringer, nos processos de assédio moral, a empresa em que ocorre o fato é quem paga o ônus. Veja alguns procedimentos que o trabalhador deve tomar:
 
Antes de tudo, procurar um advogado de confiança para, de forma reservada, ser orientado sobre o que fazer diante da situação.
 
Anotar com detalhes todas as humilhações sofridas - dia, mês, ano, hora, local ou setor, nome do agressor, colegas que testemunharam, conteúdo da conversa.
 
Dar visibilidade ao fato, procurando a ajuda dos colegas, principalmente daqueles que testemunharam o fato ou que já sofreram humilhações do agressor.
 
Evitar conversar com o agressor, sem testemunhas. Ir sempre com colega ou representante sindical.
 
Exigir, por escrito, explicações do ato agressor e permanecer com cópia da carta enviada ao Departamento pessoal.

Órgão prevê duas "décadas de mal-estar"

A violência moral no trabalho é um fenômeno internacional, segundo levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A pesquisa aponta para distúrbios da saúde mental relacionado com as condições de trabalho em países como Finlândia, Alemanha, Reino Unido, Polônia e Estados Unidos. As perspectivas são sombrias para as duas próximas décadas, pois, segundo a OIT e a Organização Mundial da Saúde, estas serão as décadas do "mal-estar na globalização", quando predominarão depressões, angustias e outros danos psíquicos, relacionados com as novas políticas de gestão na organização de trabalho e que estão vinculadas às políticas neoliberais. Fonte: www.assediomoral.org.br

Análise: Postura de vítima


O assédio moral está relacionado à pressão de produzir mais e melhor. O trabalhador tem medo de perder o emprego e se submete à humilhação, às brincadeiras de mau gosto. Há casos de pessoas doentes que escondem a enfermidade.
 
Para não manter o ciclo, o assediado nunca deve assumir uma postura de vítima. Isso só reforça o conflito. É necessário assumir as rédeas e adotar uma postura firme. Se a humilhação partiu de um colega que ocupa função semelhante, é preciso comunicar ao gestor imediato.
 
Caso a ofensa tenha partido do próprio chefe, uma conversa franca e direta pode resolver a questão. Se o problema persistir, é necessário buscar o setor de recursos humanos da empresa. Durante o conflito, é indicado construir novas alternativas de comunicação e manter o propósito dentro da empresa.

Márcia Rezende -Psicóloga

Veja os casos mais comuns
 
Em um site de relacionamentos, são mais de 80 comunidades descrevendo situações de assédio moral. As histórias são distintas, mas as conseqüências, as mesmas: depressão, ansiedade e estresse. Abaixo, você lê algumas histórias:
 
Uma estudante de engenharia revela que a chefe já a obrigou a arrumar a sala dela, sob a ameaça de demissão caso a universitária se reporte ao superior. Ela conta ainda que sai do trabalho com pelo menos uma hora de atraso diariamente, já que a superiora repassa relatórios no fim do expediente para serem feitos para o mesmo dia.
 
Uma trabalhadora relata que chegou a ser vigiada pelos colegas e depois foi colocada em uma sala distante de todos. A fase mais crítica foi quando apagaram todos os arquivos da pasta de trabalho. "Tive depressão, pânico. Tomei medicação controlada e fiquei afastada pelo INSS", completa.
 
Uma secretária bilíngüe conta que era obrigada a carregar pasta, participar de brigas familiares, colocar celular em tomada, servir água e cafezinho a toda hora e até mesmo digitar trabalhos de filhos de gestores. "Muitas vezes fui chamada de lerda incompetente, porque chorava no banheiro e não tinha coragem de revidar a um berro".
 
Um homossexual afirma que sofreu assédio por conta da opção sexual. O chefe dele ? Também homossexual ? Ao descobrir a orientação sexual começou a humilhá-lo na frente dos colegas. "Por  ele ter nível superior e eu médio, ele me humilhava e ameaçava, dizendo que eu ainda estava em estágio probatório".
 
Entre outros insultos, uma trabalhadora do setor administrativo de uma empresa conta que foi chamada de mentirosa e mal-intencionada. As agressões foram feitas por e-mail, que ela pretende usar no processo judicial. "Meu superior me acusou ainda de ter 'bloqueado' o e-mail dele  porque um e-mail que ele me enviara retornou".
 
Depois de ficar afastada seis meses de um hospital onde trabalhava, uma funcionária pública conta que foi impedida pelo chefe de trabalhar em escalas no final de semana, período em que é possível receber uma bonificação por conta das horas extras. O motivo, segundo a chefe, eram as licenças médicas. "Mandaram-me pedir exoneração.

 

02/08/2008 - 18h19 (Fernanda Zandonadi - A Gazeta)

Violência Verbal no Trabalho

Violência verbal no trabalho

Pessoas agressivas e violentas nas palavras fazem, parte do nosso quotidiano.

Desde o impaciente motorista de trânsito que nos insulta, até o cobrador da praça de pedágio que diz ao motorista, entre maus modos, que tínhamos obrigação de levar dinheiro trocado.

Mas, e quando aos mal-educados estão no nosso local de trabalho?

O local onde trabalhamos deveria ser um sítio de realização profissional e pessoal. Um bom ambiente de trabalho é sempre muito importante para nos sentirmos bem com o que fazemos e darmos o máximo rendimento possível. Ninguém rende se não gostar daquilo que faz ou se sentir hostilizado pelas pessoas com quem trabalha.

Mas por vezes isto acontece e depende de nós o rumo que esse tipo de comportamento pode levar.

Quando se começa um novo trabalho há, por vezes, pormenores que nos são estranhos e para os quais precisamos de alguma ajuda.

Ninguém é obrigado a saber tudo, aliás, não há ninguém que saiba tudo.

 

Independentemente da razão que leva certas pessoas a serem mal-educadas para com os colegas, a verdade é que não há qualquer razão que justifique esse tipo de comportamento nem razão alguma que leve alguém a ser humilhado diariamente pelos colegas.

Qual a melhor solução?

O seu superior também serve para estas coisas e não só para o "afogar" em trabalho.

Arranje um colega que seja testemunha da violência verbal a que você é sujeito e peça-lhe que testemunhe a seu favor.

Estes casos não podem, nem devem ser escondidos porque quanto mais tempo você deixar arrastar este tipo de situação só se prejudica cada vez mais.

O seu colega toma-o por fraco e a tendência é que ele seja cada vez mais agressivo e mal-educado.

Faça-lhe frente e mostre que não deixa que façam de você saco de pancada mas não se rebaixe ao ponto de cair nos mesmos argumentos que o seu colega.

Mostre que é superior a este tipo de discussões.

Mas não deixe cair estas situações no esquecimento. Faça queixa do seu colega ao seu chefe e mostre que quando o contrataram para trabalhar não especificaram que teria de suportar este tipo de comportamentos porque de outra forma nunca teria aceite este emprego.

Se nada mudar, a decisão fica inteiramente nas suas mãos.

Ou se despede porque não está lá para ser constantemente mal tratado e vai em busca de outro emprego ou fica porque, apesar de tudo, gosta muito do que faz.

Lembre-se só que empregos há muitos, mesmo que por vezes não se consiga logo de primeira o emprego com que sempre sonhou e que nada compensa a violência verbal a que você é sujeito.

Tenha orgulho em si mesmo e preserve a sua auto-estima.

Violência Verbal

Você ficou sem entender bem o que aconteceu - conversou com uma pessoa que a tratou de maneirá ríspida, grosseira. Tentava provocá-la a todo instante, mas só você percebia. Não, você não está ficando paranóico, a violência verbal infelizmente existe e pode estar em qualquer lugar. A transgressão das regras verbais, um assunto que merece nossa reflexão, é invisível para muitos por não expor marcas físicas. Não obstante, as suas cicatrizes podem destruir vidas, se assim você for se deixar levar por elas. E ainda que passe socialmente despercebida e que seja tolerada para não romper estruturas, temos de discuti-la.
A violência verbal pode também estar camuflada, sendo mais comum do que podemos imaginar e a todo instante estamos sujeitos a recebê-las. E o que dizer da agressão verbal direta! Sabemos que as palavras tem poder para alegrar assim com tem poderes para machucar e são piores do que a agressão física, pois deixam marcas, as vezes, para sempre!
Na vida familiar as vezes é pouco reconhecida tornando assim comum entre o marido e a mulher, passando por seus filhos. Assim a violência praticada na fala, como usar palavras de baixo calão e falar com tom de voz elevado, em meio ao silêncio, sob domínio do medo, fragiliza as pessoas-agredidas. Embora esse tipo de agressão não tenha marcas evidentes, é tão grave quanto o ato físico. Temos de dizer um basta a esse tipo de atitude. Não basta chocar-mos-nos com atos de descriminação que incluem violência, principalmente as físicas, e horrorizarmo-nos com guerras, bombas, tiroteios e crimes hediondos e abandonarmos as agressões verbais.
Não, o mundo certamente será melhor quando cuidarmos para que nosso comportamento verbal reflita respeito pelo outro, permitindo diferenças individuais, quer nas opiniões, quer nas escolhas, traduzidas por elegante e civilzado discurso verbal.

Os 15 mandamentos do consumidor ético e consciente

Fazendo a contraparte do consumismo irracional e alienado que financia flagelos como a destruição do meio ambiente, a exploração animal, o recrudescimento das desigualdades sociais, o desmonte moral e até a desarmonia familiar, o consumo ético vê-se cada vez mais em evidência nessa nossa realidade que vem sendo marcada pela gradual e parcial evolução de paradigmas, valores e morais. Um número notável e crescente de pessoas está enfim percebendo o quanto a humanidade está pesando, com seu hábito consumista, em cima da natureza e de si própria.

Problemas ambientais, humanitários, morais, animais, sociais, etc. mostram a cada dia que cada um de nós deve tomar consciência tão logo para que nossa existência não continue sendo esse fardo insustentável para o planeta, para as pessoas mais sofridas e para os animais. Ou ao menos sejamos um peso menor possível no planeta.

É impossível deixar de ser um consumidor desde quando a civilização começou a existir, mas é muito bem praticável adotar um consumo ético e consciente. É possível que continuemos sendo consumidores e ao mesmo tempo abandonemos o consumismo predatório e egoísta. Existe um grande número de ações possíveis para que adotemos o atributo de consumidores comprometidos com a responsabilidade de não contribuir com a degeneração do mundo. Quinze delas fazem-se mais evidentes e praticáveis na realidade brasileira e por isso estão aqui listadas.

Pratique-as e será um consumidor compromissado com a concretização dos desejos de um planeta mais habitável e uma humanidade mais tolerável.

1. Procure comprar apenas o que satisfizer suas necessidades.

Este mandamento soa como um insulto numa sociedade consumista e cultuadora dos “sonhos de consumo” como a nossa, mas, na visão de alguém que não engole o dogma cultural-econômico de que comprar e ter objetos caros e desnecessariamente luxuosos é mais valoroso do que ter itens equivalentes que satisfazem mais basicamente as necessidades, é não só necessário como ideal para que haja sustentabilidade.
Além de ser obviamente mais econômico e compensatório em todos os sentidos, diminui a chamada Pegada Ecológica, que é a contribuição individual ou familiar para o consumo global de recursos naturais e descarte de poluentes e lixo no ambiente, e nos insere numa séria e profunda reflexão sócio-filosófica sobre os malefícios trazidos pelo capitalismo como conhecemos hoje nos mais diversos âmbitos, podendo a mesma nos dar poderes de reformar muitos dos paradigmas predatórios atuais. O modo como esses poderes serão usados é um assunto para discussão coletiva entre quem aderiu ao consumo de priorização da necessidade.

2. Participe de boicotes.
Num mundo movido por dinheiro, evitar comprar de empresas antiéticas é uma ação heróica, é a estratégia mais próxima da perfeição para promover uma punição eficaz contra elas. Se interrompermos o fluxo de dinheiro para corporações que promovem certos abusos, elas sentirão as conseqüências do desagrado gerado por sua atitude naquilo que lhes é mais sensível: o lucro, que permite seu crescimento e também sua existência. Uma vez que os podres da empresa foram publicamente escancarados pelos ativistas de boicote, a imagem institucional, sagrada para a índole de toda instituição, torna-se danificada e isso nenhuma corporação deseja – seu reconhecimento público como irresponsável abusiva ou criminosa é um veneno poderoso que lhe ameaça seriamente o faturamento. Assim sendo, boicotar é o ultimato mais poderoso e eficiente que se pode fazer a uma entidade praticante de atos abusivos, numa mensagem verbal ou não-verbal que geralmente assim consiste: “Deixamos de comprar seus produtos ou serviços porque não gostamos de sua atitude no que concerne a [insira a causa abusada aqui]. Fechamos a torneira que enchia suas reservas vitais. Ou a empresa muda sua política em relação a [insira a causa abusada aqui] ou sofrerá danos profundos em sua imagem institucional e subseqüentes prejuízos financeiros que ameaçarão seus planos de desenvolvimento e talvez sua própria existência.”

O que não falta atualmente são causas para se boicotar determinadas empresas. E são muitas:

a) Violação de direitos humanos e trabalhistas: muitas corporações ainda insistem em desrespeitar direitos trabalhistas e super explorar seus empregados. A China é o país com mais ocorrências desse problema. Com abusos que vão desde o pagamento de baixos salários até disciplinamento anacronicamente cruel, espremem as forças e condições de seus funcionários para que produzam muito e, assim, tragam lucros super-altos para apreciação da cúpula diretora. Também existem empresas envolvidas com atitudes criminosas nos bastidores como ameaças dirigidas a pequenos agricultores e perseguição de ex-funcionários que denunciaram abusos internos.

b) Patrocínio de eventos de crueldade contra animais: touradas, rodeios e vaquejadas, apesar de serem atividades baseadas por definição no abuso, agressão e inflição de sofrimento contra touros, cavalos e ocasionalmente até bezerrinhos, são muito valorizados por muitas empresas em várias regiões do Brasil e do mundo.

c) Testes de produtos em animais.

d) Irresponsabilidade ambiental e cumplicidade em atos de degradação: entidades que o Greenpeace denuncia todos os anos. Multinacionais de agronegócio, gigantes petrolíferas, indústrias químicas, agroindústrias, produtoras de celulose... Os danos ambientais promovidos passam pelo desmatamento dos mais diversos ecossistemas – com destaque para florestas –, pela poluição massiva e rotineira da atmosfera, de massas d’água ou de extensões de solo e pelo descarte indiscriminado de lixo tóxico. Movimentos de boicote de causa ambiental infelizmente ainda são menos percebidos e conhecidos do que deveriam ser.

e) Inclusão de fazendas griladas no fluxograma de produção: acontece muito no Brasil, com destaque para as regiões Norte e Centro-Oeste, o fato de que imensos pedaços de terra são obtidos por desmatamento e/ou roubo de pequenos agricultores por coação armada e falsamente legalizadas por documentos forjados. Fazendeiros donos dessas áreas costumam também empregar mão-de-obra escrava ou semi-escrava para a produção. Cegamente ou por má índole, diversas empresas alimentícias compram matéria-prima agropecuária desses lugares e permitem assim a viabilidade econômica da grilagem, o que gera a continuidade da prática desse crime agrário. A maioria dessas corporações também está envolvida nas já citadas políticas de irresponsabilidade ambiental.

f) Boicote às Olimpíadas de Pequim: pelas mesmas razões que levam ao boicote de produtos “Made in China”, a edição 2008 dos Jogos Olímpicos está sendo muito visada por ativistas das mais diversas causas ao redor do mundo.


g) Boicote aos EUA: há muito tempo fala-se de boicotar as empresas americanas e esse movimento cresceu depois da Guerra do Iraque. Em outras palavras, abandonar o fast-food, os refrigerantes e certas marcas de vestuário, uma vez que é de empresas desses ramos a maioria das que possuem as piores condutas de política social, cultural e ambiental.

h) Dedicação de investimentos no financiamento da indústria armamentista: engrossando as razões de se boicotar no mínimo as piores empresas americanas, está o fato de que muitas delas são acusadas de dedicar parte de seu faturamento à contribuição financeira dos gastos militares e armamentistas dos Estados Unidos. Caso você queira boicotar empresas que contribuem com divisas para esse tipo de atividade, consulte as listas disponíveis na internet, mas verifique se as acusações dirigidas a cada uma procedem.

i) Outros boicotes: outras listas de corporações passíveis de boicote incluem exemplos como gigantes da comunicação em massa que promovem jornalismo manipulado, grosseiramente parcial e beneficiador de elites sociais e políticas, multinacionais que maltratam valores culturais e religiosos de determinados países e empresas envolvidas em freqüentes casos de desrespeito ao consumidor.

3. Desvie sempre que puder de produtos “Made in China”.
Além das razões que dei para se boicotar as Olimpíadas 2008, há várias outras que inflamam nossa consciência de modo que a recomendação é não comprar mais nada vindo da China. Vou dar alguns motivos básicos:

a) O governo chinês é uma ditadura que faz de seu povo refém de seu totalitarismo e mostra odiar os direitos humanos.

b) A super exploração trabalhista é uma das características abusivas mais importantes do capitalismo daquele país. Jornadas de trabalho semanais que chegam a mais de 70 horas, salários muito baixos, proibição de greves e protestos, são fatores abundantes lá.

c) É essa exploração que dá àquele país uma das maiores taxas de crescimento econômico do mundo e lucros “alucinantes” para as empresas que instalam filiais ali. Em outras palavras, o empresariado chinês e o multinacional só ganha tanto porque economiza o que deveria ser pago para seus trabalhadores em salários melhores e outros benefícios.

d) A exploração animal na China é a pior de todo o planeta. “Fur farms” (campos de concentração de animais que serão mortos para extração de pele); maus tratos contra animais mais freqüentes do que em qualquer lugar do mundo; uma cultura superonívora que, em termos um pouco exagerados, come quase tudo o que se move pela frente, incluindo animais em extinção e tendo humanos como exceção; etc. fazem dali um país que nenhum ativista defensor dos bichos gostaria de visitar.

e) É de praxe a opressão de minorias étnicas e nacionais no território daquele país. Em 2008, ganhou destaque absoluto a repressão infligida aos tibetanos.

f) Sustentabilidade ambiental é quase um palavrão para o capitalismo de Estado chinês.

g) Os produtos chineses costumam ser de muito baixa qualidade e quebrar fácil. Se forem baratos, é porque o material utilizado é medíocre, a mão-de-obra é mal paga e falta controle de qualidade.

4. Seja vegano.
O veganismo consiste em evitar todas as formas de exploração animal que puderem ser evitadas. Sendo vegano, você evita permanentemente carne, leite, ovos, mel, couro, seda, lã, gelatina (exceto as com base vegetal da alga ágar-ágar) e todos os produtos, alimentícios ou não, que contenham ingredientes de origem animal, em que se incluem substâncias como cálcio de ostra, glicerina não-vegetal e lanolina. Também evita produtos quaisquer de empresas que lançam mão de testes em animais para averiguar a segurança, qualidade e eficácia de seus produtos. Se não a única, é a corrente ética mais importante e recomendável no combate total à exploração e matança industrial de bichos. Se você tem uma compaixão legítima por eles, considera que explorá-los e matá-los para sempre não é compatível com o caráter racional, civilizado e constantemente evolutivo do humano, reconhece que já há alternativas livres de crueldade aplicáveis em todas as áreas da indústria de bens de consumo, o que está esperando para rever seus hábitos de consumo e adotar a atitude vegana?

Há, no entanto, duas observações a serem feitas: primeiro, os princípios ativos da maioria dos remédios atuais é proveniente de pesquisas com animais, sendo uma área muito difícil de ser boicotada – e impossível quando a pessoa é dependente de medicação controlada ou tratamentos medicamentosos prolongados e indispensáveis. Segundo, os produtos livres de testes em animais são relativamente raros em comparação aos produzidos por empresas testadoras. Assim sendo, o veganismo, que muito dificilmente poderá ser adotado em absoluto, deve vir acompanhado de disposição para participar de ações ativistas contra testes cruéis, como protestos e atos de conscientização maciça. Com o boicote vegano mais o ativismo, as empresas serão pressionadas a abandonarem os experimentos em animais, e isso já aconteceu com muitas delas.

5. Animais não são produtos nem bens de consumo.
Consumidor ético não é consumidor de animais, não os inclui no setor de “bens de consumo”, mas sim no de vidas sencientes e dignas de respeito. Assim, nunca compra bichos, e sim os adota, sem pretensões utilitárias ou seletividade de raças (no máximo há a escolha por tamanho, de acordo com as condições do futuro lar do animal tutelado), mas com a missão de salvá-los do abandono e da morte prometida pelos centros de controle de zoonoses e prover-lhe amor sem esperar nada em troca, sabendo que esse sentimento não tem preço.

6. Não compre nada vendido por crianças.
Estou falando aqui daquele trabalho diretamente ligado à miséria e, muitas vezes, à falta de escrúpulos dos pais que obrigam os filhos pequenos a trabalharem. O trabalho infantil é uma das vergonhas sociais do Brasil (e de muitos outros países), mas a maioria dos consumidores, numa vergonha de iguais dimensões, aceita torná-lo lucrativo e não hesita em comprar um jornal, um pacote de balinhas, um saquinho de amendoim... Mal sabem que estão ocupando o tempo que aquele(a) menino(a) teria para estudar, conhecer amigos e brincar. Tudo bem que a escola pública de hoje ensina muito mal, mas isso não é pretexto para contribuirmos para a criança evitá-la.

7. Se desconfiar ou souber que a pessoa está vendendo o objeto contra a família, não compre dela.
Essa questão é muito pouco lembrada no dia-a-dia, mas para ela deve ser chamada a atenção, uma vez que muitos sofrem por sua causa. Muitas vezes, em comunidades pobres, um homem que entrou em dissensão contra sua família ou está dominado pelo alcoolismo ou outro vício perde a cabeça e passa a vender objetos de sua casa. Nestes, podem estar desde a TV que diverte a família até a máquina de costura que é o ganha-pão de sua esposa ou mãe. De vez em quando, o sujeito forma um verdadeiro “bazar do mal” para se desfazer de diversos objetos contra a vontade das pessoas de seu lar.

8. Prefira produtos de material reciclado.
Reduzir, reutilizar e reciclar é o lema do consumidor ambientalmente consciente. Reduzir o seu consumo alimentar e doméstico para apenas aquilo que as necessidades exigem, reutilizar o máximo possível do que estaria destinado ao lixo mas tem componente material reaproveitável, reciclar o máximo possível de matéria-prima. Todos são valorizados por todo aquele que quer reduzir sua Pegada Ecológica, mas dou aqui ênfase à reciclagem.

As opções ambientalmente corretas estão crescendo por todo lugar. Resmas de papel reciclado, tintas com resina à base de plástico PET de garrafas, material de construção alternativo feito a partir de materiais que escaparam de ser convertidos em lixo, são várias, e cada vez mais abundantes e diversificadas, as saídas para aqueles que querem evitar aqueles produtos convencionais tão onerosos ao meio ambiente. E o preço, em grande parte dos casos, é muito camarada, aproximando-se dos materiais convencionais ou sendo ainda mais baratos.

9. Prefira comprar de empresas dotadas de responsabilidade social e ambiental.
Em vez de dedicar seus investimentos e energias para promover devastação ambiental para fins de obtenção predatória de matérias-primas ou a exploração abusiva de seus empregados com propósitos de aumento da produtividade, preferem o lado do bem, respeitando seus trabalhadores, destinando fundos para obras de cunho social e promovendo a caminhada rumo ao desenvolvimento sustentável do seu país. Buscam a excelência pela obtenção de certificados como a ISO14001 (para gestão e responsabilidade ambientais) e SA8000 (para responsabilidade social). Entre empresas comuns ou abusivas, que não possuem essa visão de harmonia empresarial e industrial com a sociedade e o meio ambiente, e as certificadas, que têm a honra de adotá-la, prefira a segunda opção se quiser consolidar sua postura de consumidor ético e consciente.

Mas, antes de abraçar determinada instituição, saiba que, em boa parte das ocasiões, a tal responsabilidade é apenas uma fachada institucional para atrair mais simpatia dos clientes e conseqüentemente mais lucro, ou para encobrir abusos ocorrentes nos bastidores, e não tem fundamentos sólidos ou obras que comprovem essa boa índole empresarial. Assim, é de bom grado que o consumidor responsável tome ciência das boas ações concluídas ou em andamento por parte daquela empresa e também ponha na balança essas ações em um prato e o lado mais pernicioso dos procedimentos empresariais dela no outro. Se o lado positivo da corporação valer muito mais que o negativo, pode ir até abraçar o prédio de sua filial ou matriz. Se a diferença for pouca para o lado bom ou os pratos da balança estiverem equilibrados, é ocasião para pensar duas vezes antes de procurar um produto ou serviço dela. Se o lado ruim pesar mais e estiver caracterizada uma falsa responsabilidade sócio-ambiental, corra e alerte as pessoas ao seu redor.

10. Madeira, apenas certificada.
A maioria da madeira comercializada nas madeireiras brasileiras vem de desmatamento ilegal. Assim é muito fácil manter uma venda fácil de madeiras, afinal a fonte – a Amazônia, na grande maioria dos casos – parece inesgotável porque, segundo alguns, “ainda tem muita mata sobrando”. Um consumidor consciente e responsável não pensa assim nem tolera esse oba-oba predatório. Antes de comprar madeira para sua casa na madeireira tal, certifique-se de que a origem dela é de extração legal, proveniente de plantações arbóreas ou manejo florestal, e verifique se há certificado atestando essa legalidade.

11. Prefira álcool ou gás natural (até porque não há combustível melhor que esses no momento)
Apesar de o álcool vir de canaviais surgidos de um processo secular de desmatamento sistemático descontrolado contra a Mata Atlântica e concentração fundiária e o gás natural ser tão não-renovável quanto o petróleo, os dois combustíveis ainda são os menos maus disponíveis. Poluem menos que a gasolina e seus preços também são menos salgados. Entretanto, no caso do álcool, há o contrapeso de estimular o desmatamento, o não-reflorestamento da Mata Atlântica, a glória latifundiária e também o esmagamento da agricultura alimentícia, uma das mais prováveis razões especuladas para a atual crise dos alimentos. Mas ainda assim, entre a gasolina, o álcool e o gás natural, prefiro indicar os dois últimos. Mas quando as células de hidrogênio e, talvez, as de água eletrolisada chegarem, vou poder respirar mais aliviado.

12. Feche o bolso (e, se puder, os ouvidos) para músicos envolvidos em más influências à juventude e crueldades.
Quando pensamos ou temos vontade de pensar que, com o passar dos anos e a multiplicação da informação de fácil acesso, a preocupação dos músicos com sua integridade, dignidade, reputação e saúde amadureceu a ponto de passarem a prezar pela boa influência e inspiração de seus fãs, batemos forte com a cara na parede. Continuam abundantes os cantores e integrantes de bandas ora envolvidos com drogas e adeptos do showbiz bizarro de exibir-se as consumindo e minando sua vitalidade e saúde, ora incentivadores da crueldade contra animais, ora praticantes de apologias à irresponsabilidade juvenil.

Gentalha como Amy Winehouse, vulgo Já Morreu, um dos dois únicos nomes que faço questão de dedurar neste artigo, parece querer induzir seus fãs a adotarem um caminho perverso, autodestrutivo e até criminoso com suas peripécias mórbidas de envolvimento com drogas pesadas, brigas e arruaças. Terminam, voluntária ou involuntariamente, passando a mensagem “façam m..., é muito cool e divertido!” e sendo ainda piores e mais perigosos que as mais sofisticadas propagandas de cigarro. Ela não é o único mau exemplo de artista, a música pop tem muitos outros casos contemporâneos de suicidas graduais sobre os quais convido você, a saber, mais pela internet e por livros.

Os segundos exemplos, os quais incluem muitos artistas brasileiríssimos, são de artistas e bandas que, exaltam e aproveitam-se da falta de compaixão com os animais. O exemplo estrangeiro mais famoso é Jennifer Lopez, o segundo nome dedurado por aqui, e seus muitos casacos de pele. Sempre ignorou e desdenhou os apelos de entidades defensoras dos animais como o PETA e, em alguns clipes, faz questão de ostentar casacos feitos a partir da morte de dezenas de bichos torturados e esfolados vivos.

Já no Brasil, galopam as bandas e músicos, em sua maioria de rock, country, sertanejo e daquilo que chamam de “forró estilizado”, que tocam em rodeios e vaquejadas. Falta de alertas não é pretexto, uma vez que a única atitude tomada pela maioria em resposta a apelos de ativistas de direitos não-humanos é ignorá-los e até fechar seus canais de comunicação para eles. Aproveitam-se da lotação desses shows de horrores para vomitar suas músicas perante um público visivelmente alienado e ignorante das atrocidades ocorridas na arena próxima.

E falando em “aquilo que chamam de ‘forró estilizado’”, esse estilo, na maioria das músicas (han-han...), faz um caso típico de apologia à irresponsabilidade juvenil. Pegue uma amostra de cinco canções das bandas mais famosas do que eu chamo de Ritmo Nordestino Estilizado Imundo e verá temas deploráveis: alcoolismo, pornografia explícita (com o agravante de que muitos fãs desse estilo musical são menores de idade), sexo irresponsável, infidelidade e traição conjugal, misoginia, prostituição sem controle, apologia às vaquejadas... O incentivo à adoção desses comportamentos é franco e explícito.

Paras essas turminhas, vale também responder com a linguagem do boicote. Feche o bolso para elas, evite comprar seus CDs e DVDs e ir aos seus shows. E não vou sugerir que baixe MP3 como alternativa, uma vez que há no mesmo os potenciais da continuidade da audiência e divulgação. Em vez disso, faço outra recomendação enfática, pegando carona na baixíssima qualidade do som tocado por todos esses músicos: feche seus ouvidos também! Consumidor ético e consciente também não dá ibope para gentalhas provedoras de más influências e que não respeitam os animais. Enfatizo aquela velha frase transmitida em jogos antigos de videogame: “Vencedores não usam drogas”. E lanço minha versão: “Vencedores não OUVEM drogas”.

13. Prefira produtos agrícolas orgânicos.
Estes vêm, mais asseguradamente, de plantações mais corretas em seus procedimentos, as quais não estimulam a concentração fundiária nem costumam fazer uso de agrotóxicos que terminam envenenando os alimentos e promovendo uma lenta sabotagem bioquímica no corpo de quem os compra. É um pouco mais caro, mas compensa muito quando se fala de boa saúde e longevidade. Aparece, porém, a objeção de que o preço a mais que se daria em feiras orgânicas é “a mais demais” para se conceber sem chiar, ainda mais numa época de inflação alimentícia.

14. Não seja guloso.
Uma vez que o consumidor consciente “reduz, reutiliza e recicla”, podemos considerar que “reduzir” também implica ser mais moderado na alimentação. Se você hoje come muito para matar a fome, recomendo uma reeducação alimentar, simultaneamente uma reeducação que diminua essa necessidade pela metade, tal demanda vai cair na mesma proporção e sua pressão em cima da natureza, a parte alimentar da Pegada Ecológica, será 50% menor.

15. Conscientize.
Um consumidor ético e consciente deseja muito expandir sua ética e consciência para o máximo possível de pessoas. Por isso, vem o mandamento enfático: conscientize quem você puder explicando e pregando as 14 sugestões anteriores. Se você quiser ser um dos heróis, e não um dos vilões, no mundo atual movido pelo consumo, seja um consumidor responsável, ético e consciente. 



Na intenção de escrever sobre o consumo desenfreado de hoje encontrei este artigo muito original. Visitem o espaço do autor na rede e leia seu artigo na integra.

Robson Fernando
robfbms@hotmail.com
http://conscienciaefervescente.blogspot.com  

 

 

 

Crime de estupro se mantém oculto no medo e preconceito


O tema é tratado com pudor exagerado na sociedade brasileira. A natureza do crime implica à vitima, talvez mais que o medo,  um constrangimento sem tamanho. Tanto, que somente 10% delas fazem a comunicação oficial à polícia. O estupro ainda é um assunto que se fala sob a penumbra, e em Natal também é assim.

O fato de as vítimas não aparecerem com facilidade para o mundo, pode fazer com que pensemos que o delito é incomum. E que mulheres violentadas sexualmente não passam de tristes vítimas do destino ou de um azar sem tamanho. Puro engano. Os casos não são tão raros assim. E as queixas continuam a ser feitas nas delegacias da mulher da capital.

Segundo números da Coordenadoria de Defesa das Mulheres e das Minorias/RN, somente no ano passado, foram abertos 38 inquéritos policiais sobre o crime de estupro em Natal. Na média, dá mais de 3 casos por mês na cidade. Se for levada em conta a estatística dos especialistas – sobre a proporção das que recorrem à polícia -, ocorreram em Natal 30 estupros por mês em 2007.

A situação se torna ainda mais grave, se forem contabilizadas as queixas prestadas, já que nem todas acabam em inquéritos. De acordo com o setor de estatísticas da Secretaria Estadual de Segurança Pública e Defesa Social (Sesed), foram feitas 73 queixas em delegacias especializadas no ano passado.

O que é pior, de todas essas, 52 foram feitas na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DCA). Isto é, as vítimas tinham menos de dezoito anos. Aliás, este é um outro ponto   lamentável. As crianças são as maiores vítimas, e os autores dos delitos, são, em grande maioria dos casos, pais, padrastos ou outros familiares das vítimas. A violência, nesses casos, é fruto de uma aproximação conquistada.

“Por isso o crime contra a criança é mais covarde, mais absurdo, na minha opinião”, disse Rossana Pinheiro, experiente delegada que iniciou a delegacia da mulher em Natal, e que hoje está à frente da Coordenadoria de Defesa da Mulheres e das Minorias.

A delegada descreve ainda que, no caso de agressores que agem contra mulheres adultas, as características são diferentes. “Eles não chegam a ser parentes, mas conhecem a vítima. Têm proximidade com ela, e passa a seguir e estudar os seus passos”, contou a delegada Rossana Pinheiro.

A policial lembrou também que, com o passar dos anos, a estrutura governamental tem procurado se modificar, em função do sofrimento das mulheres que passaram pela traumatizante experiência. “Antigamente as mulheres iam à delegacia prestar queixa e ouviam piadas dos policiais, como se ela tivesse provocado a situação. Hoje nós procuramos  mudar isso”, disse.

Porém, mesmo assim, o Brasil avançou muito pouco no que diz respeito ao trabalho a ser feito com as vítimas. Em cada estado há redes de assistência, em Natal também, mas ainda falta uma coesão maior entre os pontos desta rede: as instituições policiais, médicas e sociais que prestam este apoio.

Atualmente, a mulher vítima de abuso sexual acaba tendo que ir a quatro, cinco lugares para contar a mesma história. O ideal, segundo os especialistas, seria que a vítima fosse em um só lugar, logo após a violência e ali, tivesse toda a assistência de uma só vez. Para as autoridades no assunto, atualmente, o melhor a se fazer é procurar uma unidade de saúde especializada, para só então, ir à delegacia. Pouca gente sabe, mas há em Natal duas unidades de saúde com este serviço. Um sofrimento a menos, para a mulher que sofreu a violência. 

Psicóloga faz avaliação das vítimas

A psicóloga Mariza Rarene é especializada em Psicologia Jurídica e trabalha no Instituto Técnico e Científico de Polícia (Itep) desde 1986 e compôs a primeira equipe da  Delegacia de Defesa da Mulher. Atualmente atua como psicóloga forense do instituto, atendendo e preparando laudos sobre a situação de mulheres vítimas de violência sexual.

Cabe à psicóloga perita, expedir o laudo psicológico com informações a serem usadas durante o processo judicial. Caso algum problema seja diagnosticado, o documento vai auxiliar o delegado, o Ministério Público ou o juiz no caso. “Não fazemos tratamento, nem acompanhamento psicológico”, disse a especialista.

Segundo Mariza Rarene, a maioria das mulheres adultas, atendidas, é vítima de violência doméstica já as crianças geralmente são vítimas de maus tratos e violência sexual. Quanto à forma como elas chegam ao Itep, as características são as mesmas. “Elas apresentam constrangimento, medo e vergonha. Sugerem baixa auto-estima, além de outros comprometimentos de ordem emocional. Quanto ao mundo e o agressor, vai depender de quem é o agressor e em que contexto se encontra.”, disse a psicóloga.

Mariza Rarene conta que o estupro pode causar seqüelas capazes de deixar mudanças profundas e impeditivas na vida da mulher. As principais características apresentadas são mudança súbita de conduta, depressão e isolamento de amigos e família, rebeldia ou delinqüência, agressividade excessiva, além de terror ou medo de algumas pessoas ou lugares.

Natal tem duas unidades especializadas

Em Natal existem duas unidades de saúde com serviços especializados em atendimento às mulheres vítimas de abuso sexual. Na maternidade Januário Cicco e no Hospital Santa Catarina elas são acolhidas e as primeiras medidas são tomadas,  tanto para evitar uma gravidez como doenças. As duas instituições são ainda as únicas autorizadas em todo o estado para a realização do aborto legalizado.

A obstetra e ginecologista Stenia Lins trabalha na Januário Cicco – maternidade da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – desde 1982. E trabalha no Programa de Atenção a Mulheres e Adolescentes (Proama) desde 2000, ano de sua implantação. A iniciativa é fruto de uma norma técnica do Ministério da Saúde, publicada dois anos antes e visa atender às vítimas de violência sexual.

 As mulheres e adolescentes chegam à maternidade, em sua maioria, já depois de terem passado por alguma outra instituição da rede de proteção (polícia, Itep ou conselho tutelar). Mas segundo a especialista, a ida à unidade de saúde deve ser o mais rápido possível. “A recomendação é de que, a pessoa em situação de violência, procure primeiro o hospital. Depois é que nós encaminhamos à delegacia”, disse a médica.

Para não prejudicar as investigações, os médicos fazem anotações sobre o quadro encontrado, e o laudo serve como uma perícia indireta. “Caso o juiz solicite, nós disponibilizamos esse laudo para que possa servir no processo”, explicou a doutora Stenia. Segundo números do Proama, entre 2003 e 2006, foram atendidas 223 mulheres na Januário Cicco. Uma média de cinco mulheres por mês.  A necessidade de se procurar a unidade de saúde se faz necessária principalmente pela prevenção da gravidez, com a administração da pílula do dia seguinte e DSTs.

No dia 10 de outubro do ano passado, ela passou pela terrível experiência de ser abusada sexualmente. Por razões óbvias, a identidade da costureira de 26 anos será preservada e será dado a ela, o nome fictício de “Patrícia”. Moradora de uma cidade da região metropolitana de Natal, ela estava esperando o ônibus para ir à aula, a pouco mais de vinte metros da porta de casa.

Era por volta de 18h30, quando o criminoso surgiu em meio à escuridão, montado em uma bicicleta. Os pais dela estavam em casa, mas portas e janelas estavam fechadas, pois fazia frio naquela noite. Durante o assalto, o criminoso resolveu violentar Patrícia, na frente de duas amigas, que esperavam o ônibus com ela.

Dias depois, o estuprador foi preso. E com mais dez dias, conseguiu fugir da delegacia. A relativa paz de Patrícia só veio com a notícia de que o criminoso havia sido morto em Natal, no carnaval deste ano. Hoje, ela trabalha e tenta seguir a vida normalmente. E conta que arranja forças diariamente no amor que tem ao filho e à família. Foi com o menino de três anos que ela se preocupou, durante a violência que sofreu. 

Entrevista /  Patrícia, vítima de estupro

Você conseguiria contar como tudo aconteceu naquela noite?
Eu estava indo para a escola e neste dia o ônibus demorou um pouco, daí ficamos eu e duas colegas na parada. De repente chega um cara, de bicicleta, dá boa noite, pede a hora. (...) Aí ele disse: “olha, ninguém saia, que isso é um assalto”. Aí mostrou a arma e perguntou se a gente tinha dinheiro e telefone (...) De repente ele disse que a gente fosse pro matagal e ninguém corresse, senão ele atirava. Ele mandou a gente se deitar, e eu pensei que ele fosse atirar, porque ninguém tinha objeto de valor .

Tudo isso, praticamente, na frente da sua casa...

É, bem aqui na frente da minha casa. Ele perguntou se a outra menina era casada, debochou porque ela é casada e não usava aliança... Perguntou se eu era casada. Eu disse: “não, sou separada há três anos”. Ele disse: “você, uma menina tão bonita e não tem ninguém?”

E em que momento ele resolveu não praticar somente o assalto?

Logo depois ele disse: “você, levante e tire a roupa”. Aí eu tirei a calça, né? Aí ele fez: “agora tire a calcinha”. Eu disse: “homem, leve tudo, mas deixe a gente viva, não faça nada, não”. Ele disse: “você prefere ver seu filho, ou ficar aqui estirada?”. Eu disse: “eu quero ver meu filho, lógico”.  Aí ele disse: “então tire a calcinha”. Na mesma hora eu tirei, ele foi, fez a tal da gravata, botou o revólver na minha cabeça, e praticou o sexo. (...) Ele disse que sabia onde eu estudava e que se eu denunciasse, ele vinha me buscar (...). Aí eu comecei a me vestir, e ele mandou que eu vestisse só a calça, e levou a calcinha.

Qual foi seu primeiro sentimento após aquela violência?

Eu senti um nojo muito grande. Minha vontade era chegar, tirar a roupa, tomar um banho e me livrar daquilo. Mas eu sabia que não ia sair de mim. Tava tudo fechado aqui, e eu chamei minha mãe. Eu disse: “abra aqui, que eu fui estuprada”. Isso já chorando muito, me tremendo”.  No que ela abriu, eu fui direto pro quarto, abracei meu filho, beijei ele, beijei muito ele, mesmo ele dormindo. Depois disso fui imediatamente pro banheiro, tomei banho e troquei de roupa. Depois o pessoal da polícia veio, pra eu preencher a papelada, fazer as averigüações.

Algumas pessoas criticaram o fato de você ter tomado banho, trocado as roupas por conta das provas do crime. Mas é uma coisa muito difícil de fazer...

É, demais. É como eu disse: na hora eu só queria me livrar de tudo, do cheiro dele... por isso na mesma hora eu fui pro banheiro. Eu me sentia muito nojenta, tinha vergonha de olhar para os meus pais.

Pouquíssimas mulheres vão prestar queixa.

Por que você resolveu fazer? O que lhe deu forças?

Assim... como poucas vão prestar queixa, eu tinha pra mim, que eu tinha que fazer aquilo. Não como uma vingança, mas justiça. Se eu não fosse correr atrás dos meus direitos, ninguém ia. Se aconteceu um estupro comigo, e eu não fosse, eles iam dizer: “ah, ela gostou, a vítima nem veio aqui, a gente não pode fazer nada”. Então eu tinha que fazer justiça pra mim mesmo.

Você ainda teve forças para ajudar nas investigações do seu caso.

Como assim?

Uns dias depois, eu fui pegar o resultado da escola e vi ele passar por mim com a mesma roupa que estava no assalto. Eu disse: “aquele é o cara que me estuprou”. Meu amigo disse que ele poderia voltar, e a gente foi embora.

O que você sentiu na hora?

O sentimento que eu tive é que alguém pudesse pegar ele naquela hora, e também senti muito medo.

Sim, mas o que você fez mesmo, para que ele acabasse preso?

Bom, depois daquele momento passou uns três dias, oito horas da manhã, eu estava em casa e ele passou na lateral da minha casa. Daí eu segui ele, e lá na frente eu não vi mais. Perguntei a um vizinho se tinha passado um cara de bicicleta, que tinha sido o homem que tinha me estuprado. O cara disse que não era ele. Eu vim embora e quando cheguei em casa, um policial chegou e disse que eu fosse com ele. Eu perguntava: “onde ele está?”. Daí o policial disse: “Ele está morando aqui perto da sua casa”.

Depois a polícia fez um cerco e o prendeu.

O que ele disse?

Ele disse que não era ele, que era um cara de bem. A mulher dele disse que ele não era daquilo, que era evangélico e tudo. Que era casado e tinha três filhos. Ele dizia: “bote a vítima aqui na minha frente, pra ela dizer se fui eu”.

Hoje você parece ter superado tudo isso.

Voltou a sair, freqüentar festas.

Você foi criticada por isso?

Muito. Fui muito criticada. Diziam que eu tinha gostado, porque tinha sido estuprada e já estava em festa. Diziam que se tivesse de acontecer de novo, eu não me preocupava, que não ia nem presta queixa. Quando na verdade, eu ia para procurar ele. Além do mais eu pensava em não me deprimir. Não ia terminar minha vida por causa de ninguém.  Eu tenho minha vontade de viver. Passei por duas psicólogas, tomei medicamento, fiz vários exames, entendeu? E eu tenho um filho lindo para criar. Tenho muita coisa pra viver.

As psicólogas que você procurou?

Foi por sua conta, ou uma orientação de algum serviço especializado.

A primeira psicóloga que eu fui foi a do Itep, quando fui fazer o exame de conjunção carnal. Mas a outra foi por minha conta. Não tive praticamente a ajuda de ninguém, só mesmo do chefe de investigações, que disse que ia pegar ele.

Você sabia que há serviços especializados, pelo estado, para vítimas de violência sexual?

Não, eu não sabia. Eu acho que deveria ter mais divulgação, com certeza. Eu não quero que aconteça com ninguém. Mas se acontecer, que procurem ajuda, seja lá do governo ou do privado. E tem que ter mais divulgação, sim. Porque fiz tudo a meu custo. Tive só a psicóloga do Itep e nada mais.

Você ficou com alguma seqüela psicológica?

Mudou alguma coisa na sua personalidade?

Ah, ficou. Ninguém pode se aproximar de mim, que eu já fico com um certo receio. Eu estou caminhando e vejo alguém de longe, já fico cismada. Eu ando, mas eu ando com medo. Tenho um certo receio em conversar, pegar uma carona, fazer uma certa amizade.

Na sua sexualidade ficou algum trauma?

Você tem dificuldade em se aproximar, de namorar uma pessoa?

Ah... ficou sim... com certeza. Recentemente eu conheci uma pessoa... mas praticamente a perdi por causa do que aconteceu. Eu tinha um receio sobre a sexualidade. Tinha medo de me aproximar e acontecer algo parecido. Tinha medo de me aproximar dele, ocorrer algo parecido e eu me lembrar de tudo. Assim... pra me relacionar com alguém hoje em dia, pra eu me interessar por alguém é muito mais difícil.

Você acha que vai superar isso também?

Com certeza. Com muita fé em Deus, com força de vontade pra viver. É como eu falei, eu tenho um filho, eu tenho família, e vou superar isso também. Com fé em Deus.

Tribuna do Norte
Jacson Damasceno - Repórter



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